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Questão tributária impacta competitividade do Café Solúvel brasileiro

06/09/2019

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Confira entrevista do presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), Pedro Guimarães Fernandes, ao Jornal do Café.

 

JC – Quais as principais preocupações e problemas que afetam a indústria de café solúvel no Brasil?

Pedro Guimarães – Temos algumas preocupações recorrentes e bem conhecidas que impactam diretamente na competitividade do café solúvel brasileiro. A questão tributária é a principal, especificamente o ICMS. Nossas empresas exportam 80% do que produzem e os créditos de ICMS originados das compras de cafés nos estados fora de nossa sede industrial, são como bolas de neves de recursos que só crescem, sem correção monetária e com dificuldades enormes de serem recuperados.

 

Discussões sobre a Lei Kandir e as dificuldades dos Estados em ressarcirem os créditos afetam diretamente nossa competitividade e causam transtornos em nosso fluxo financeiro.  Posso afirmar seguramente que se a questão do ICMS for resolvida na reforma tributária, nossas exportações darão um salto significativo de volume em muito pouco tempo. 

 

Barreira tarifária também é uma delas, eu diria que uma das principais. São as tarifas de importação cobradas por diversos países a produtos brasileiros, incluindo o solúvel. Acordos comerciais são as soluções, se não os realizarmos, países concorrentes que detêm acordos comerciais de tarifas reduzidas acabam tendo vantagem sobre o nosso poder competitivo. Para se ter uma ideia, de 144 países para onde o Brasil exporta ou exportou café solúvel nos últimos 12 anos, menos de 40 deles aplicam tarifas entre 0% a 5%.

 

O Brasil precisa implementar cada vez mais acordos comerciais via Mercosul ou bilaterais. Nossa esperança é a sinalização deste Governo que tem implementado uma política interna ativa, culminando com a conclusão dos acordos com União Europeia, EFTA, entre outros em andamento.

 

Sobre a matéria-prima, me refiro ao café conilon, se os preços internos se mantiverem compatíveis com os preços internacionais, com a reforma tributária solucionando o ICMS e os acordos comerciais forem firmados, seguramente aumentaremos as receitas de nossas exportações de US$ 600 milhões anuais para US$ 1 bilhão, em 5 anos.

 

JC – O abastecimento de matéria-prima é adequado? O drawback poderia ajudar a indústria do solúvel? Quais os entraves?

Pedro Guimarães – O abastecimento se encontra adequado já há algum tempo, depois dos problemas que tivemos em 2016/17 em que fomos afetados pela escassez de oferta por força da seca que prejudicou duas safras no Espírito Santo. Se nenhum problema climático ocorrer, nos parece que não teremos problemas de abastecimento nos próximos anos do ponto de vista de oferta.  

 

Não tendo problemas de oferta e os preços internos compatíveis com os internacionais, não há o que se falar em necessidade de importação e regime de drawback. É, sem dúvida, uma ferramenta importante para garantir a capacidade competitiva do Brasil, mas seu uso é para momentos muito pontuais.

 

Não esperamos ter que utilizá-la no curto e médio prazo. Acreditamos na capacidade de produção de nossos cafeicultores para atender às nossas demandas.

 

JC – O acordo UE x Mercosul pode beneficiar o setor? Quais as expectativas a médio e logo prazos?

Pedro Guimarães – Sem dúvida nenhuma irá beneficiar! A União Europeia é nosso segundo maior destino de exportações, já foi o primeiro, e com o volume em dobro do que é hoje há pelo menos 10 anos.

 

Perdemos mercado ao longo desses anos exatamente pela tarifa que nos foi imposta de 9%, e prejudicados por regimes preferenciais de tarifas e acordos comerciais com países concorrentes que ganharam espaço, tomando do Brasil.  Nossa grande reputação de qualidade e entrega no mercado europeu nos permite projetar um crescimento de 35% em volume nos próximos 5 anos, com o acordo entrando em vigor, zerando a tarifa gradativamente em 4 anos.

 

JC – A ABICS acaba de lançar uma nova marca. Qual o principal objetivo dessa iniciativa?

Pedro Guimarães – A marca e a identidade institucional do Café Solúvel Brasileiro, líder mundial de produção e exportação, conhecido até então por meio das marcas de suas associadas e que agora tem uma identidade para se reconhecer um produto do Brasil. Com suas características peculiares, representadas pelas palavras Explore & Enjoy e Crie & Curta, que sugerem um café solúvel de qualidade, obtido por diferentes processos de fabricação, diversidade de blends, múltiplas aplicações e formas de consumo.

 

O objetivo é ampliar nossa imagem mundialmente nos consolidando ainda mais na liderança da exportação. Já no Brasil, pretendemos utilizar em campanhas de marketing para os consumidores na expectativa de ampliar nosso mercado no País.

 

JC – A entidade tem desenvolvido uma série de atividades de cupping, inclusive em parceria com a ABIC. O retorno junto aos participantes tem dado bons resultados?

Pedro Guimarães – Os eventos de cupping são essencialmente técnicos, com a presença de técnicos das indústrias de solúvel e empresas que detêm marcas importantes de café solúvel no Brasil, que até então faziam análises sensoriais com metodologias próprias. O objetivo desses trabalhos são o desenvolvimento e a criação de uma metodologia padrão de análise sensorial, com a pretensão de ser global, algo inexistente mundialmente.

 

Está sendo uma experiência fantástica que, além da participação das indústrias associadas da ABICS, a Café Campinho, Cocam, Cacique, Iguaçu, Nestlé e Realcafé, temos a participação de importantes empresas como 3 Corações, JDE, Mellita, Café Suplicy, Native, ITAL e UFRJ, trabalho coordenado pela nossa consultora Eliana Relvas.

E nesse esforço devo ressaltar a parceria fundamental da ABIC e do Centro de Preparo de Café do Sindicato da Industria de Café do Estado de São Paulo.

 

Ter uma metodologia sensorial nos permitirá extrair informações dos atributos positivos dos diversos cafés solúveis produzidos, padronizando as provas sensoriais, possibilitando a calibração dos degustadores e, assim como aconteceu com o café torrado e moído, conhecer o que há de melhor nas inúmeras possibilidades de sabores e aromas que um café solúvel pode proporcionar. É uma iniciativa inédita, com a ousadia de se tornar uma metodologia mundial. É um grande marco histórico do café solúvel do Brasil.

 

JC – O Selo de Pureza da ABIC completou 30 anos do seu lançamento no mês de agosto. Como você avalia essa ação da entidade? Qual a importância para a cadeia produtiva do Selo de Pureza e das demais certificações da ABIC?

Pedro Guimarães – Avalio da forma mais positiva possível. Atingir 30 anos é porque tem méritos e porque funciona. O selo instituído pela ABIC foi um marco, divisor de águas que, na época, ajudou a barrar os abusos de misturas ilegais proporcionando, diríamos, a moralização do café torrado brasileiro. 

 

Está aí o resultado, nosso País como o 2º maior consumidor mundial, consumo per capita acima de 6 quilos por habitante. O selo, as certificações, o marketing que a ABIC desenvolveu e desenvolve são, sem sombra de dúvidas, os responsáveis por essa pujança em que todos nós nos beneficiamos. Parabéns ABIC pelos 30 anos de Selo, que é referência para outros produtos e sempre citado mundialmente.

 

JC – Há quantos anos você trabalha com café? Como começou? Como são seus hábitos de consumo? Prepara seu próprio café?

Pedro Guimarães – Trabalho com café desde sempre! Desde pequeno tenho envolvimento. Tenho lembranças de meu pai e meus tios sempre falando sobre o mercado de café, café robusta, arábica, tipos diferentes da bebida e etc. Mal sabiam eles, mas já despertavam muito meu interesse por este assunto.

 

Assim que entrei na universidade, comecei, também, a estagiar no departamento de Marketing da Companhia Cacique. Após me formar em Administração de Empresas, fiz um curso especializado em comércio exterior. Passei para a área comercial, fui gerente de vendas internacionais por alguns anos até me tornar Diretor Comercial e de Marketing Internacional Adjunto e, hoje, sou Diretor Comercial da Companhia.

 

Tomo café o tempo todo! Sou daqueles que acorda e precisa de café para começar o dia. Preparo meu próprio café pela manhã. Costumo tomar uma xícara de café solúvel 100% arábica antes de sair de casa para ir ao escritório ou pedalar.

 

JC – Gostaria de deixar alguma mensagem ao torrefador brasileiro?

Pedro Guimarães – Ao torrefador brasileiro gostaria de deixar meus mais sinceros votos de sucesso. Estamos todos no mesmo barco e trabalhando para fortalecer nosso setor cada vez mais. Nossa união é fundamental para que possamos alcançar nossos interesses e sustentarmos nossa vocação de sermos os maiores produtores de café do mundo. Precisamos olhar para o futuro e trabalhar para que o café brasileiro seja nacionalmente e mundialmente reconhecido por seu sabor e características únicas.

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