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Entrevista: Sérgio Cândido Pereira – Presidente e CEO da Cacique

27/01/2020

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A unidade de Linhares da Cia. Cacique de Café Solúvel, tem investimentos previstos de mais de 60 milhões de dólares durante a fase de construção, em uma área total de 500 mil metros quadrados. Esta nova fábrica terá capacidade de produção de 12 a 14 mil toneladas de café solúvel por ano. A conclusão da primeira etapa desta unidade está prevista para o primeiro trimestre de 2021. A produção na unidade de Linhares estará focada exclusivamente na exportação, sendo a Cia. líder na produção e exportação de café solúvel no país.

 

Para falar mais sobre a relação da implantação da unidade fabril no ES e sua relação com a cafeicultura em nosso Estado, Sergio Cândido Pereira, presidente e CEO da Cia. Cacique de Café Solúvel é o nosso entrevistado desta edição da Procampo. “Hoje a Cacique está presente em 70 países, nos cinco continentes, convivendo com hábitos, culturas e paladares distintos. Com produção de mais de 30 mil toneladas por ano, a Cacique destina 96% de seus produtos para exportação”, afirma o presidente. Leia!

 

Procampo – Conte-nos sobre a história da Cia. Cacique.

Sérgio Cândido Pereira – A primeira unidade fabril da Cia. Cacique foi fundada em 1959 na cidade de Londrina (PR) por Horácio Sabino Coimbra. A Cacique é uma das maiores indústrias de produção de café solúvel do mundo em uma única planta. Projetada para desenvolver, produzir e comercializar produtos de café, a unidade tem capacidade para processar, por dia mais de 90 toneladas de café solúvel (liofilizado, pó solúvel e aglomerado), óleo e extrato de café. Hoje a Cacique está presente em 70 países, nos cinco continentes, convivendo com hábitos, culturas e paladares distintos. Com produção de mais de 30 mil toneladas ao ano a Cacique destina 96% de seus produtos para exportação, com escritórios em São Paulo, Nova Iorque e Moscou.

 

A unidade de Linhares (ES), tem investimentos previstos de mais de 60 milhões de dólares em uma área total de 500 mil metros quadrados de terreno. A nova fábrica terá capacidade de produção de 12 a 14 mil toneladas de café solúvel por ano. A conclusão da primeira etapa desta unidade está prevista para o primeiro trimestre de 2021. Durante a fase de construção, teremos 300 novos empregos diretos. Em 2021, quando já estiver operando, serão mais de 200 empregos diretos e 800 indiretos.

 

Procampo – Quais as razões da escolha do Espírito Santo para a construção da nova unidade fabril?

Sérgio Cândido Pereira – O Espírito Santo é o maior estado produtor de café conillon do Brasil, variedade mais utilizada na produção de café solúvel.

 

As nossas compras de café verde no Espírito Santo são substanciais. Hoje pelo menos 40% a 50% de todo o café que compramos é deste Estado, um volume de 400 a 500 mil sacas de café/ano. Com esta nova unidade, devemos dobrar as nossas compras de café no Estado, podendo chegar perto de um milhão de sacas/ano.

 

Estar perto dos produtores é importante e esta é uma das muitas razões pelas quais viemos para Linhares.

 

Mas nós avaliamos também a questão logística. Ou seja, a proximidade e acesso a um porto marítimo. A Cacique exporta 96% de toda a sua produção. Nossa localização em Londrina, embora um pouco distante, tem bom acesso ao Porto de Santos e até o momento produzimos em Londrina para exportação e também para o mercado interno. Mas sem dúvida alguma, aquela unidade é mais apropriada hoje para as nossas vendas no mercado interno. Já a produção na unidade de Linhares, estará focada exclusivamente na exportação.

 

Também analisamos muito a disponibilidade de mão de obra especializada e bem preparada. E isto encontramos no Espírito Santo, e particularmente, em Linhares. Assim, a escolha do Espírito Santo para a construção da nova unidade foi natural.

 

Procampo – Qual a maior contribuição que a Cia. Cacique dará a cafeicultura capixaba com a instalação dessa fábrica no Estado?

Sérgio Cândido Pereira – Conforme falamos, o aumento de nosso volume de compras de café será sem dúvida alguma uma grande contribuição – compra adicional de um volume considerável. Estaremos dobrando a quantidade de café que hoje compramos no Estado. Mas existem outras contribuições que podemos dar a cafeicultura capixaba.

Vamos estar fisicamente mais perto dos produtores e nosso objetivo é trabalhar junto a eles na melhoria da qualidade do café.

 

Podemos também oferecer apoio logístico para o escoamento da safra como também trabalhar e orientar os produtores para que consigam certificações internacionais que propiciem melhor preço e maior remuneração ao produtor. Com isto eles poderão agregar valor ao produto.

 

Procampo – Na sua avaliação, a chegada da Cacique no Estado elevará os preços do café conilon?

Sérgio Cândido Pereira – Não vejo uma relação direta e imediata entre a entrada da Cacique no Estado e o aumento do preço do café. Esta demanda adicional a que me referi iria se concretizar independente do local onde fossemos construir esta nova unidade.

 

Assim é difícil fazer uma correlação entre a construção desta unidade no estado do ES e um aumento no preço do café. Ou seja, o volume adicional de compra de 400 a 500 mil sacas de conilon, independe do local onde fossemos construir esta nova fábrica. Nós avaliamos todos os estados produtores – São Paulo, Minas Gerais, Rondônia e obviamente também exploramos a possibilidade de expandir a nossa unidade fabril de Londrina.

 

Mas o Espírito Santo apresentou vantagens competitivas que deverão, sem dúvida alguma, se refletir em menores custos para a Cacique. Como disse, a proximidade de nossos fornecedores, logística e mão de obra foram as principais razões para esta escolha.

 

Voltando a questão de um eventual aumento nos preços do café, veja bem. O produtor hoje é muito bem informado. Os valores do café refletem o mercado e a demanda no Brasil, mas também os preços no mercado internacional. E o produtor sabe disso muito bem. Ele hoje está ligado ao mundo via internet e outros meios de comunicação.

 

Mais do que uma possível melhora nos preços do café devido a uma demanda maior, vejo outros benefícios imediatos ao produtor. A cafeicultura terá a partir da construção desta fábrica, um cliente em suas portas, onde ele pode entregar uma venda com bastante rapidez e receber o numerário correspondente muito mais rápido.

 

Ou seja, vejo uma liquidez maior para o produtor com a possibilidade que ele terá com uma indústria aqui a seu lado. Hoje o produtor vende para uma indústria que está a centenas de quilômetros de distância, seja esta indústria de solúvel ou mesmo uma torrefação. A partir da construção desta unidade, ele terá acesso a um cliente que está às suas portas.

 

Procampo – No planejamento da Cia. Cacique, tem alguma parceria com o setor produtivo para melhoria da qualidade dos cafés?

Sérgio Cândido Pereira – Obviamente vamos estar muito mais perto da lavoura e de nossos fornecedores. E assim vamos poder focar ainda mais na melhoria da qualidade do café que utilizamos.

 

Vamos incentivar um contato maior entre nossa equipe de compras de matéria prima e também de nossa equipe técnica da indústria com os nossos fornecedores locais.

 

Mas este é um trabalho que já fazemos há bastante tempo. O nosso gerente de Suprimentos de Matéria Prima, Élcio Carvalho e nosso comprador local, o Erivelton Barbosa visitam constantemente nossos fornecedores no Espírito Santo.

 

Temos grandes parcerias no Estado com um grande número de produtores. Você anda por aí e pergunta a qualquer produtor se eles conhecem a Cacique, o Élcio ou o Erivelton.

 

Garanto que eles vão lhe dizer que sim, “estiveram aqui na semana passada…”

 

Procampo – Como a Cacique vê o esforço que está sendo feito para a produção de cafés de qualidade superior na área do conilon?

Sérgio Cândido Pereira – Não tenho dúvida alguma de que a qualidade do café no Espírito Santo é muito boa.

E o que é mais importante, existe um grande trabalho que está sendo feito pelo governo e também por entidades de classe para a melhoria da qualidade. E não é só isso. Encontramos no ES produtores interessados e focados na melhoria da qualidade e também na melhoria das condições das lavouras, nos tratos culturais do café.

 

Haja visto o grande problema que surgiu recentemente – a presença no café conilon de resíduos de glifosato em quantidade superior ao aceitável pelas organizações internacionais, e acima do nível que pode estar presente no café para venda no mercado comum Europeu.

 

Os produtores do Espírito Santo foram altamente pro-ativos em procurar entender e aceitar que o trato correto da lavoura é importante e fundamental para que continuemos presentes no mercado internacional.

 

Procampo – A Cacique pretende se inserir no apoio à transferência tecnológica de conhecimento na produção de café no Espírito Santo?

Sérgio Cândido Pereira – Estaremos sempre juntos à cafeicultura. E daremos a nossa contribuição. Mas de maneira alguma vamos nos colocar como detentores de conhecimento tecnológico na produção de café acima das entidades especializadas.

 

Nós conhecemos muito e sabemos bastante de nosso negócio – produção de café solúvel. Esta é a nossa especialidade. Mas quem mais conhece a produção de café é o próprio cafeicultor. Queremos e vamos procurar dar apoio para que os produtores tenham acesso a novas técnicas e maiores conhecimentos. Mas não vamos nos colocar como conhecedores e especialistas em produção de café acima dos produtores e das entidades especializadas.

 

Procampo – A indústria do solúvel tem a intenção de trilhar pelo caminho dos conilons de qualidade superior?

Sérgio Cândido Pereira – Excelente pergunta. Este movimento já existe e a indústria de solúvel está sendo bastante ativa e proativa no que diz respeito a qualidade do conilon, variedade que é a mais utilizada por nós.

 

Este trabalho está sendo liderado pela Abics, nossa Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel, que hoje é presidida pelo diretor Comercial da Cacique. Dada a sua importância, sugiro que este assunto seja até mesmo objeto de uma futura entrevista ou mesmo um artigo à parte na Revista Procampo. E para discutir este assunto, ninguém melhor do que o nosso diretor Executivo e de Relações Institucionais da Abics, Aguinaldo José de Lima.

 

O Sr. Aguinaldo é uma pessoa originária da lavoura cafeeira. Foi cafeicultor, trabalhou em cooperativa e é um profundo conhecedor de café. Ele tem feito um grande trabalho para a melhoria da qualidade do café solúvel e principalmente no que diz respeito à disseminação do conhecimento e uso do café solúvel junto ao mercado consumidor. Aumento do consumo de solúvel leva a um aumento da utilização do café conilon. Todas as empresas associadas a Abics participam deste esforço e estão trabalhando e trazendo para discussão a questão da qualidade, do preparo do café solúvel e sua utilização no dia a dia.

 

A Cacique tem focado não somente na qualidade do solúvel como também no aumento da produção de cafés de melhor qualidade e também de cafés certificados. Hoje, compramos uma quantidade significativa de café robusta certificados: Fair Trade, UTZ e Rainforest. O mercado para estes cafés é ainda pequeno, mas em crescimento. E o que é mais importante, o produtor recebe um prêmio em todos estes produtos.

 

Como disse, este ponto da qualidade é de tão grande importância que merece um artigo em separado. Seja uma entrevista comigo mesmo ou, melhor ainda, com o Aguinaldo Lima, da Abics.

 

Entrevista publicada na 82ª edição da Revista Procampo (Nov/Dez 2019)

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